"A minha avó, pequena e fina sob um turbilhão de bonitos cabelos brancos, era uma ave presa por um polícia benevolente, mas ríspido. Cantarolava todo o dia, na sua cozinha, no celeiro, à beira do regato ao lavar a roupa, nos campos com o ancinho na mão e no bosque ao colher as amoras (...).
A vida junto dela era uma opereta melancólica, interpretada sem esperança de público no cenário vetusto da pobreza, por uma frágil Cinderela sobrecarregada de trabalhos e que nunca veria, nunca, o seu vestido cinzento tornar-se vestido de noite e as suas abóboras transformarem-se em carruagem
De noite sentava-me nos seus joelhos e murmurava-me uma canção de embalar da sua autoria, que dizia incansavelmente: "Tous là-bas, Tous là-bas, Tous là-bas, bas, bas; Tous là-bas, bas, bas, bas". Eram as únicas palavras da canção, que não durava menos do que um bom quarto de hora. Este tu-lá-bá repetido em todos os tons fazia-me sonhar, sorrir e dormir. A ela devo, provavelmente, ter suportado melhor do que quaisquer outros certas enumerações da liturgia, que alguns tendem a achar demasiado longas e que a mim pareceriam demasiado curtas. (...)
Nunca recebi dela senão biscoitos e carícias, aqueles bons grandes beijos do campo que saltam como rolhas de champagne, e nunca a vi irritada, nem sequer de mau humor. (...)
Morreu não muito velha, longe disso, da doença que outrora se chamava anemia perniciosa e que por ter recebido depois um nome mais científico não deixa de ser menos inexorável.(...)
Tinha sido transportada ao hospital (...). As religiosas do hospital, sabendo o estado da doente, tinham-na instalado num quarto muito amplo, que dava para um jardim através de uma alta janela sem cortinas. Toda ela era brancura sob os cabelos brancos, ainda mais pequena e como que apertada no meio da cama que ela não ousava ocupar completamente, mas não mais revoltada, nem menos delicademente acolhedora, apenas um pouco mais distante, espantada por ser servida e por estas senhoras instruídas, que de vez em quando entreabriam a porta e retiravam-se sem que ela encontrasse algo para lhes perguntar.
Não se preocupava mais consigo mesma do que habitualmente e as suas palavras foram de compaixão pelos sofrimentos de um outro. Os seus olhos enfraquecidos, que já não conseguiam ler, fixavam-se muitas vezes num crucifixo pendurado na parede, em frente da cama. Um dia, e foi o seu último dia, olhou-o longamente e disse, mais distante do que nunca de pensar na sua própria sorte: "Ah, coitado do homem", no tom de piedade delicada, último pipilar da ave esgotada, chegando a saltitar ao fim do ramo que ia partir-se."
Frossard, André. Deus existe, eu encontrei-o
A vida junto dela era uma opereta melancólica, interpretada sem esperança de público no cenário vetusto da pobreza, por uma frágil Cinderela sobrecarregada de trabalhos e que nunca veria, nunca, o seu vestido cinzento tornar-se vestido de noite e as suas abóboras transformarem-se em carruagem
De noite sentava-me nos seus joelhos e murmurava-me uma canção de embalar da sua autoria, que dizia incansavelmente: "Tous là-bas, Tous là-bas, Tous là-bas, bas, bas; Tous là-bas, bas, bas, bas". Eram as únicas palavras da canção, que não durava menos do que um bom quarto de hora. Este tu-lá-bá repetido em todos os tons fazia-me sonhar, sorrir e dormir. A ela devo, provavelmente, ter suportado melhor do que quaisquer outros certas enumerações da liturgia, que alguns tendem a achar demasiado longas e que a mim pareceriam demasiado curtas. (...)
Nunca recebi dela senão biscoitos e carícias, aqueles bons grandes beijos do campo que saltam como rolhas de champagne, e nunca a vi irritada, nem sequer de mau humor. (...)
Morreu não muito velha, longe disso, da doença que outrora se chamava anemia perniciosa e que por ter recebido depois um nome mais científico não deixa de ser menos inexorável.(...)
Tinha sido transportada ao hospital (...). As religiosas do hospital, sabendo o estado da doente, tinham-na instalado num quarto muito amplo, que dava para um jardim através de uma alta janela sem cortinas. Toda ela era brancura sob os cabelos brancos, ainda mais pequena e como que apertada no meio da cama que ela não ousava ocupar completamente, mas não mais revoltada, nem menos delicademente acolhedora, apenas um pouco mais distante, espantada por ser servida e por estas senhoras instruídas, que de vez em quando entreabriam a porta e retiravam-se sem que ela encontrasse algo para lhes perguntar.
Não se preocupava mais consigo mesma do que habitualmente e as suas palavras foram de compaixão pelos sofrimentos de um outro. Os seus olhos enfraquecidos, que já não conseguiam ler, fixavam-se muitas vezes num crucifixo pendurado na parede, em frente da cama. Um dia, e foi o seu último dia, olhou-o longamente e disse, mais distante do que nunca de pensar na sua própria sorte: "Ah, coitado do homem", no tom de piedade delicada, último pipilar da ave esgotada, chegando a saltitar ao fim do ramo que ia partir-se."
Frossard, André. Deus existe, eu encontrei-o

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