Sábado, 31 de Dezembro de 2011

As avós e os beijos dos campos

"A minha avó, pequena e fina sob um turbilhão de bonitos cabelos brancos, era uma ave presa por um polícia benevolente, mas ríspido. Cantarolava todo o dia, na sua cozinha, no celeiro, à beira do regato ao lavar a roupa, nos campos com o ancinho na mão e no bosque ao colher as amoras (...).
A vida junto dela era uma opereta melancólica, interpretada sem esperança de público no cenário vetusto da pobreza, por uma frágil Cinderela sobrecarregada de trabalhos e que nunca veria, nunca, o seu vestido cinzento tornar-se vestido de noite e as suas abóboras transformarem-se em carruagem
De noite sentava-me nos seus joelhos e murmurava-me uma canção de embalar da sua autoria, que dizia incansavelmente: "Tous là-bas, Tous là-bas, Tous là-bas, bas, bas; Tous là-bas, bas, bas, bas". Eram as únicas palavras da canção, que não durava menos do que um bom quarto de hora. Este tu-lá-bá repetido em todos os tons fazia-me sonhar, sorrir e dormir. A ela devo, provavelmente, ter suportado melhor do que quaisquer outros certas enumerações da liturgia, que alguns tendem a achar demasiado longas e que a mim pareceriam demasiado curtas. (...)
Nunca recebi dela senão biscoitos e carícias, aqueles bons grandes beijos do campo que saltam como rolhas de champagne, e nunca a vi irritada, nem sequer de mau humor. (...)
Morreu não muito velha, longe disso, da doença que outrora se chamava anemia perniciosa e que por ter recebido depois um nome mais científico não deixa de ser menos inexorável.(...)
Tinha sido transportada ao hospital (...). As religiosas do hospital, sabendo o estado da doente, tinham-na instalado num quarto muito amplo, que dava para um jardim através de uma alta janela sem cortinas. Toda ela era brancura sob os cabelos brancos, ainda mais pequena e como que apertada no meio da cama que ela não ousava ocupar completamente, mas não mais revoltada, nem menos delicademente acolhedora, apenas um pouco mais distante, espantada por ser servida e por estas senhoras instruídas, que de vez em quando entreabriam a porta e retiravam-se sem que ela encontrasse algo para lhes perguntar.
Não se preocupava mais consigo mesma do que habitualmente e as suas palavras foram de compaixão pelos sofrimentos de um outro. Os seus olhos enfraquecidos, que já não conseguiam ler, fixavam-se muitas vezes num crucifixo pendurado na parede, em frente da cama. Um dia, e foi o seu último dia, olhou-o longamente e disse, mais distante do que nunca de pensar na sua própria sorte: "Ah, coitado do homem", no tom de piedade delicada, último pipilar da ave esgotada, chegando a saltitar ao fim do ramo que ia partir-se."

Frossard, André. Deus existe, eu encontrei-o

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

O Porquê do Jantar dos Conjurados






Tenho lido na internet algumas críticas aos jantares organizados pelas reais associações, em particular ao jantar dos conjurados, daí escrever este pequeno apontamento, no qual sintetizo a minha opinião.



Em primeiro lugar, o jantar dos conjurados é a perpetuação da memória histórica; da memória de indivíduos que arriscaram tudo o que tinham (e alguns deles tinham muito) em prole do bem comum. Os conjurados eram fidalgos de antiga linhagem, possidentes, que podiam ter pactuado com D. Filipe e, consequentemente, retido a sua influência na corte e na sociedade da época. Optaram por não o fazer. Optaram por arriscar uma morte dolorosa e humilhante, a perda de todos os seus bens, o conforto das suas vidas. É nosso dever, não só enquanto monárquicos, mas também enquanto portugueses, garantir que a sua memória perdura. É neste jantar, todos reunidos, que damos graças a Deus por ter levado a iniciativa dos conjurados a bom porto.



Em segundo lugar, o jantar serve um propósito mais prático e mais mundano: fortalecer os laços entre os monárquicos, através do convívio salutar, através da discussão de ideias, através da formação de novos conhecimentos e novas amizades. No jantar dos conjurados que decorreu no CCB estiveram presentes muitos jovens: alguns eram meus amigos, outros meus conhecidos e outros ainda não tinham sido apresentados. Fiquei a conhecer vários, troquei contactos, discuti a possibilidade de novas iniciativas, dei a conhecer a recém-reestruturada Juventude Monárquica do Porto da qual faço parte. Tudo isto faz parte do tão necessário “trabalho de base” para uma maior coordenação entre as várias reais associações e juventudes monárquicas.



Por fim, o jantar é ainda a oportunidade de travar conhecimento com SAR o Sr. D. Duarte — algo que havia feito há bastante tempo – e que tem sempre disponibilidade e paciência para ouvir opiniões dos monárquicos, dar sugestões, partilhar connosco a sua sabedoria que advém de longos anos ao serviço da Pátria.



Termino com uma nota aos que criticam o jantar com acusações de elitismo. Aos que criticam o preço, que olhem para as quantias que gastam em bilhetes para jogos de futebol, presentes de Natal e outros divertimentos frívolos e que olhem para dentro antes de criticar os que se esforçam para reunir os monárquicos num grande evento. Aos que criticam o traje, direi apenas isto: um jantar com a Família Real requer dignidade e protocolo. Se não entendem isto e sugerem que se vá cumprimentar SAR de calças de ganga e camisa por fora das calças, então demonstram uma falta de nível tremenda, já para não falar da mais básica das cortesias para com o Sr. D. Duarte. Aos que criticam o compadrio, tenho apenas a dizer que quanto mais unidos e próximos forem os monárquicos, maior será a força da nossa causa.



Saúdo SAR o Sr. D. Duarte, Duque de Bragança pela sua mensagem de realismo e de patriotismo, saúdo o Sr. Conde de Avintes (Dr. Luís Lavradio) pelo trabalho que tem feito em prole da Causa Real e saúdo os organizadores do jantar por um evento do qual os monárquicos se podem orgulhar.







Viva El Rey.


Henrique Sousa de Azevedo


Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

The Screwtape Letters

"Tomo nota de lo que dices acerca de orientar las lecturas de tu paciente y de ocuparte de que vea muy a menudo a su amigo materialista, pero ¿no estarás pecando de ingenuo? Parece como si creyeses que los razonamientos son el mejor medio de librarle de las garras del Enemigo. Si hubiese vivido hace unos (pocos) siglos, es posible que sí: en aquella época, los hombres todavía sabían bastante bien cuándo estaba probada una cosa y cuándo no lo estaba; y una vez demostrada, la creían de verdad; todavía unían el pensamiento a la acción, y estaban dispuestos a cambiar su modo de vida como consecuencia de una cadena de razonamientos. Pero ahora, con las revistas semanales y otras armas semejantes, hemos cambiado mucho todo eso. Tu hombre se ha acostumbrado, desde que era un muchacho, a tener dentro de su cabeza, bailoteando juntas, una docena de filosofías incompatibles. Ahora no piensa, ante todo, si las doctrinas son «ciertas» o «falsas», sino «académicas» o «prácticas», «superadas» o «actuales», «convencionales» o «implacables». La jerga, no la argumentación, es tu mejor aliado en la labor de mantenerle apartado de la Iglesia. ¡No pierdas el tiempo tratando de hacerle creer que el materialismo es la verdad! Hazle pensar que es poderoso, o sobrio, o valiente; que es la filosofía del futuro. Eso es lo que le importa.


¿Empiezas a coger la idea? Gracias a ciertos procesos que pusimos en marcha en su interior hace siglos, les resulta totalmente imposible creer en lo extraordinario mientras tienen algo conocido a la vista. No dejes de insistir acerca de la normalidad de las cosas. Sobre todo, no intentes utilizar la ciencia (quiero decir, las ciencias de verdad) como defensa contra el Cristianismo, porque, con toda seguridad, le incitarán a pensar en realidades que no puede tocar ni ver. Se han dado casos lamentables entre los físicos modernos. Y si ha de juguetear con las ciencias, que se limite a la economía y la sociología; no le dejes alejarse de la invaluable «vida real». Pero lo mejor es no dejarle leer libros científicos, sino darle la sensación general de que sabe todo, y que todo lo que haya pescado en conversaciones o lecturas es «el resultado de las últimas investigaciones». Acuérdate de que estás ahí para embarullarle; por cómo habláis algunos demonios jóvenes, cualquiera creería que nuestro trabajo consiste en enseñar.
Tu cariñoso tío,
Screwtape"